O olho vê tudo com impressionante nitidez: cistos, miomas, aderências, inflamações e até uma gravidez tubária. Mas esse olho não é humano. Exatamente por isso, vê melhor que o homem, a olho nu. E é capaz de guiar os médicos por uma fantástica viagem ao interior da mulher, comprovando ou não, sem a menos sombra de dúvida, os problemas ginecológicos que o raio-X e o ultra-som apenas sugeriam. Mais do que isso: o olho que vê tudo – uma microcâmara de vídeo introduzida no abdômen por um orifício de menos de dez milímetros – acompanha os movimentos delicados de duas outras sondas milimétricas que, manobradas pelos especialistas, cortam, cauterizam, aspiram, curam. Sem traumas, compressas, gazes ou pontos cirúrgicos internos, a paciente vai para casa no mesmo dia. A videoendoscopia é a última palavra em ginecologia high-tech, um dos exemplos mais avançados da cirurgia sem corte – a definitiva tendência da medicina do futuro. Em São Paulo, este futuro é agora.

1990-02_manchete_miniA microcâmara vai fazendo uma panorâmica na cavidade pélvica da paciente, como um superespião que conhece perfeitamente o terreno onde anda. O útero e as duas trompas – formando um conjunto que, prosaicamente, se assemelha a uma cabeça de menina ornada por marias-chiquinhas. Os ovários, com o branco original do mistério da vida. O intestino grosso. O diafragma. O fígado e a vesícula. As estruturas abdominais formam um belo quadro de natureza viva. Normalmente, é um conjunto muito confuso. Mas a ação invisível do gás carbônico inoculado no abdômen da paciente isola um órgão do outro – fazendo as vezes do afastador cirúrgico usado nas operações convencionais. Os médicos, de vídeo à sua frente, têm uma visão privilegiada do interior do ventre. A fonte de luz é tão intensa, a aproximação óptica é tão nítida, que é como se os olhos deles quase tocassem cada órgão. Nesta viagem, não é difícil descobrir por que a paciente se queixava de tantas dores abdominais quando procurou a equipe:

— Aderência, muita aderência – anuncia o Dr. Cláudio Basbaum, no centro cirúrgico do Hospital São Luís, em São Paulo, cenário das primeiras videocirurgias do gênero.

As imagens na tela são claras até para um leigo. Véus de tecido com a aparência e consistência de papel celofane infestam toda a pélvis, colando um órgão ao outro. Eis aí a fonte da dor. Basbaum explica: esses tecidos anormais – na verdade, u ma forma de defesa do organismo contra agressões de diversos tipos, infecções ou inflamações – têm terminações nervosas que se manifestam quando a paciente se movimenta. Além de muito dolorosa, as aderências podem causar esterilidade. Detectado o problema, é hora de agir. Pelo segundo orifício, uma longa e delicada tesoura, vigiada pelo olho eletrônico, começa a fazer a chamada toalete: corta todos os véus elegantemente e sem nenhum trauma. Em pouco tempo, está tudo descolado. Sem a videoendoscopia, essa limpeza se aderências – a chamada adesiolise – teria que ser feita a céu aberto. E com resultado paradoxal – a eliminação de aderências via bisturi pode provocar novas aderências.

Os ginecologistas que dominam a tecnologia da videoendoscopia – ainda uma casta – já não conseguem se imaginar abrindo um abdômen para corrigir problemas desse tipo. O bisturi ginecológico vai sendo pouco a pouco aposentado. Mesmo porque, o ventre feminino, como o futebol, é uma caixinha de surpresas. Boa parte das intervenções cirúrgicas acabam sendo desnecessárias – castigando o corpo da mulher e as finanças do casal. Uma cirurgia a ventre aberto exige pelo menos três dias de hospitalização – sem falar no longo período pós-operatório. As pacientes da videoendoscopia acordam da anestesia, ficam algumas horas de resguardo no hospital e vão dormir em casa. Dois dias depois, em geral, já reassumiram suas funções.Na era da medicina minimalista, que parece irreversível, o diagnóstico das doenças ginecológicas via endoscopia costuma ser inapelável – e o tratamento da maior parte das patologias encontradas também é feito no ato, sem abrir a barrigas. É uma contra-revolução no império do bisturi.

A videoendoscopia é um produto da união da alta tecnologia óptica e eletrônica – como o vídeo de alta resolução – com a velha laparoscopia, técnica de visualização do abdômen por uma pequena incisão à altura do umbigo. Até há pouco tempo, a laparoscopia só fazia diagnósticos – no máximo, uma biópsia de tecido. Além disso, obrigava os médicos a visualizar o interior do ventre pelo próprio instrumento óptico, espremendo o olho numa espécie de periscópio abdominal, com óbvias limitações do campo de visão. A possibilidade de introduzir uma minúscula câmara de vídeo por essa via de acesso inaugurada pela laparoscopia abriu imensas perspectivas diagnósticas e terapêuticas. Agora, com a visão plena de cada estrutura abdominal e com o aperfeiçoamento do instrumental, os ginecologistas podem intervir em todo o aparelho reprodutor da mulher – com os benefícios da operação a céu fechado.

Mulher dos anos 90: a high-tech da videoendoscopia contrasta com a humanização do parto leboyer

O Dr. Basbaum vai enumerando:
1) Diagnóstico imediato e com certeza absoluta.
2) Intervenção segura, elegante, pouco agressiva, conservadora.
3) Menor custo hospitalar – internação de apenas 4 a 6 horas.
4) Preservação da estética da barriga pela ausência de grandes incisões.
5) Redução dos riscos de infecção – o abdômen não é exposto à atmosfera ambiente.
6) Prevenção de aderências.

A técnica tem o caráter quase lúdico de um vídeo-game – mas não é brincadeira. A videoendoscopia, não só a ginecológica mas como qualquer intervenção em circuito fechado, exige uma habilidade manual muito superior à da manipulação do bisturi comum. O que é fácil explicar. O cirurgião principal maneja a microcâmara com a mão direita, os instrumentos de ataque com a esquerda. Por isso, deve ser necessariamente ambidestro. O monitor de vídeo é seu único horizonte visual. Como as imagens eletrônicas (ainda) não tem o sentido de profundidade, a abordagem de estruturas delicadíssimas – um ovário, por exemplo – requer absoluto controle da perspectiva de espaço. Um erro de cálculo e o órgão nobre pode ser lesado. A equipe paulista, composta pelos Drs. Cláudio Basbaum, Francesco Viscomi e Caio Parente Barbosa, aperfeiçoou-se na França e na Itália com os célebres ginecoendoscopistas Bruhat, Manhes e Mencaglia. E agora o time brasileiro é presença constante nos congressos internacionais da especialidade – no momento, eles estão na Suíça para um simpósio. São todos fascinados pelas potencialidades dessa tecnologia. “É um espião que, além de confirmar as suspeitas e levantar informações completas, prepara a estratégia e também realiza o ataque” – resume o Dr. Cláudio Basbaum, que se consagra no campo da obstetrícia ao se tornar o introdutor no Brasil do parto Leboyer. Ironicamente, a forma menos tecnológica de nascer.

Uma sétima vantagem da técnica da endoscopia por vídeo inaugura uma nova era no relacionamento entre médicos e pacientes. Os especialistas agora não se limitam a relatar verbalmente o que encontraram e o que fizeram – mostram às pacientes interessadas um teipe completo com todas as etapas do processo. Em cores deslumbrantes e detalhes inimagináveis. Pela primeira vez, uma mulher pode ver suas entranhas e compreender seus males – além de assistir pessoalmente à sua cura. Uma paciente com diagnóstico de apendicite aguda foi poupada de última hora por uma providencial videoendoscopia. No dia seguinte, poderia ver ao vivo como e por que escapou da faca. O apêndice, na verdade, estava bonito e rosado. O que havia confundido os médicos, pelos sintomas típicos de um quadro de abdômen agudo, foi uma trompa muito inflamada. O vídeo flagrou até o detalhe de uma gota de pus vertendo da tuba. A simples administração de antibióticos evitou uma grande intervenção.

Claro que muitas vezes a nova tecnologia confirma o que já se suspeitava nos exames ultra-sonográficos ou radiológicos – mas sempre sem agressividade no ato da cura. Uma mulher com gravidez ectópica – quando o embrião fica aprisionado no interior da trompa – é submetida a uma videoendoscopia. As dores e o sangramento, além das imagens do ultra-som, eram bem sugestivos de uma gravidez tubária. Indicação clássica: retirada da trompa antes que ela se rompa, o que caracterizaria uma situação de emergência. De fato, o vídeo confirma o diagnóstico: a tuba está grávida. Mas a endoscopia permite aos médicos planejar a preservação da trompa. OS dois instrumentos terapêuticos – como braços de robô que podem se transformar em tesouras, ou pinças, cauterizadores ou aspiradores – começam a delicada abordagem da trompa. Com uma sonda-pinça, os médicos tentam o procedimentos mais conservador: ordenhar a tuba na tentativa de que ela expulse o embrião por sua extremidade. Impossível. Então, partem para o ataque – mas sempre com tato e elegância.

Enquanto a pinça traciona a trompa afetada, a sonda-tesoura vai rompendo seu invólucro. Em poucos minutos o microfeto está solto – e pode ser retirado, inteiro, por um dos orifícios milimétricos. A incisão tubária foi tão delicada que a trompa está salva – mantendo o status de fertilidade da paciente. O triunfo da preservação do órgão é o happy-end de mais uma videoendoscopia operatória. A preservação é a palavra de ordem da maior parte das videoendoscopia. No caso dos cistos ovarianos – uma espécie de bexiga de festa cheia de líquido -, o tecido nobre do ovário pode ser plenamente conservado. Miomas são retirados se lesar a parte sadia do útero. Focos de endometriose – ilhas de tecido intra-uterino que menstruam dentro do abdômen causando dor e infertilidade – poder ser completamente erradicados pelo cauterizador acoplado ao aparelho. Também sem corte e sem maior agressão ao ventre. “A cirurgia de endometriose pela via convencional é geradora de aderências em mais da metade dos casos” – lamenta o Dr. Basbaum.

Enfim, uma boa notícia para as mulheres que já encerraram seu ciclo de reprodução e desejam uma vida sexual segura e sem sustos – a videoendoscopia também faz laqueadura de trompas, pelo anel de Yoon ou pela secção pura e simples.

Com a videoendoscopia, o Brasil ingressa numa autêntica revolução na técnica cirúrgica ginecológica. A mulher sempre pagou tributo à sua peculiar anatomia. Com o abdômen congestionado pelos órgãos de reprodução exclusivos do sexo feminino – útero, trompas, ovários –, tem o corpo castigado por doenças que exigiam traumáticas explorações investigatórias. A mulher deste fim de século será cada vez mais poupada pela videoendoscopia – apenas uma inofensiva câmara indiscreta para apontar seus males. E garantir a integridade de uma região que os mestres franceses, como o laivo da poesia, chamam de poço da fertilidade.

Basbaum/Leboyer: 20 anos fazendo bebês que nascem sorrindo

O lado obstetra do Dr. Cláudio Basbaum, pernambucano de nascimento, 52 anos, pós-graduado na França, ainda é mais famoso que o do ginecoendoscopista: há 16 anos, quando introduziu o método no Brasil, ele não abre mão da idéia Leboyer de fazer nascer uma criança. É a emoção versus medicalização. A sensibilidade contra a tecnologia. Não é uma forma de parto, mas uma idéia de nascimento, formulada pelo médico francês há exatos 20 anos – tanto que um bebê Leboyer pode vir à luz até numa cesárea, como na sequência de fotos que ilustram estas páginas. O que importa, segundo Basbaum, é o modo de recepcionar o bebê – um viajante cansado, esgotado da terrível viagem que é sair do útero, a uma temperatura de 37 graus, onde flutua num mundo maravilhoso, morno e aconchegante, para uma sala a 15, luzes na cara, pendurado de cabeça para baixo, manipulado, intubado, sem falar no desespero do corte do cordão, obrigado, de repente, a respirar por seus próprios meios.

“Não se flagela um traumatizado” – pontifica Basbaum. “O médico deve atuar como médico apenas quando necessário. Caso contrário, deve ser apenas um bom amigo daquela criatura que está chegando.” Esses 16 anos de experiência com um procedimento carinhoso de recepção do bebê são ao médico a certeza de que as mães, mesmo ignorando Leboyer, desejam firmemente a desmedicalização do nascimento de seus filhos. “Elas querem, como qualquer animal, ter o direito de lamber suas crias. E cobram do médico um gesto de maior doçura – não admitem atitudes prepotentes de domínio sobre o bebê. As mães esperam nenê durando tantos meses e, quando ele chega, não lhe dão o nenê tão ansiosamente esperado. Isso é cruel.

Quanto à chamada geração Leboyer – no Brasil, adolescentes que já têm 16 anos –, Basbaum também não tem dúvida de que são pessoas que se beneficiaram do momento especial do nascimento. Pelo menos é o que garantem os estudo internacionais de psicobiologia: “Crianças Leboyer, nascidas sem violência, têm um melhor início e, em geral, são crianças mais seguras, com mais estabilidade e confiança – porque, ao chegarem a este mundo, foram bem recebidas. Por isso, acreditam que serão sempre bem recebidas – e não têm receio de situações novas.”

A ideia Leboyer não pegou muito entre os obstetras brasileiros – “é preciso não ter vergonha de se emocionar no memento do nascimento”. Mas quem já fez quer fazer sempre. Agora mesmo Basbaum, fez o parto de uma paciente que fora, na França, um dos primeiros bebês de Leboyer.

“Já sou, portanto, um vovô Leboyer” – brinca ele.

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