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Na minha atividade como médico obstetra, fui influenciado pelas ideias do médico francês Frederick Leboyer (1974), precursor e defensor da humanização do nascimento através do nascimento menos violento para o bebê. Durante minha carreira, sempre observei ao longo dos anos a paz e o prazer que experimentavam os recém-nascidos ao contatar o corpo da mãe e ao lamber ou sugar seus mamilos, já nos primeiros minutos de sua vida extrauterina.

A partir dessas observações, desde 1974 alterei radicalmente o ritual do nascimento e passei a incluir na minha prática médica a amamentação ainda na sala de parto, mesmo nos casos em que era realizada uma cesariana.

A hora de ouro

A primeira hora de vida do bebê com a mãe, logo após nascer, tem sido chamada por especialistas de “golden hour” (hora de ouro). De acordo com a recomendação da OMS (Organização Mundial de Saúde) todas as rotinas com o bebê tais como lavá-lo, pesá-lo e enrolá-lo em campos estéreis devem ser evitadas até o bebê mamar, durante a primeira hora de nascimento.

Não só contribui para salvar a vida de muitos bebês, o aleitamento materno na primeira hora ajuda a mulher a ter leite mais rapidamente e auxilia nas contrações uterinas, diminuindo o risco de hemorragia pós-parto.

Na primeira hora, o bebê quer ser tocado, abraçado e sentir-se bem recebido. Desses primeiros momentos ele vai extrair os alimentos para a sua autoestima futura e seu desenvolvimento saudável.

Para a mãe, oferecer a pele e o seio ao bebê logo após o nascimento, além da intensa gratificação emocional, faz desencadear no seu organismo amplo processo fisiológico que inclui a liberação de endorfina, ocitocina e prolactina. A endorfina promove a sensação de bem-estar e maior tolerância às contrações uterinas. A ocitocina, promove a contração uterina, aumento de atividade das glândulas mamárias e intensificação do sentimento maternal, por isso se chamada de “hormônio do amor”. Diretamente associado ao vínculo afetivo mãe-bebê, a ocitocina contribui ainda para a expulsão fisiológica da placenta e para o controle do sangramento uterino. A prolactina estimula a produção e liberação inicial de uma verdadeira “vacina”, que é o colostro.

O colostro, líquido viscoso amarelo-dourado que precede a saída do leite, é 20 vezes mais rico em anticorpos do que o sangue da mãe (por exemplo, nos teores de gamaglobulinas), bem como mais concentrado em proteínas, vitaminas, sais minerais, entre outros. Ademais, propicia ao recém-nascido uma imunidade passiva que durará pelo menos seis meses, momento a partir do qual ele já estará apto a produzir seus próprios anticorpos.

O líquido é liberado num volume médio de 3-5 ml por mamada, durante cerca de uma semana, quando começa a produção do leite de transição. Este, por sua vez, é mais abundante, já tem a aparência do leite que conhecemos, sendo mais calórico e mais rico em gorduras, vitaminas e lactose.

O colostro é também a única substância capaz de eliminar todos os resíduos de mecônio do intestino do bebê, prevenindo o aparecimento de alergias, infecções e diarréia, graças ao adequado controle e equilíbrio na colonização das bactérias que ali se desenvolvem. No dia do parto, o colostro se apresenta ainda mais rico.

Segundo a UNICEF, a amamentação na primeira hora (Golden Hour) pode evitar a morte de um imenso número de crianças em países em desenvolvimento, já que mais de um terço da mortalidade infantil ocorre durante o primeiro mês de vida.

A importância do leite materno

O leite materno é o único alimento capaz de oferecer todos os nutrientes na quantidade exata que o bebê precisa para seu crescimento, desenvolvimento e principalmente, se o aleitamento for iniciado na primeira hora após o nascimento, a “golden hour”. Além disso, está demonstrado que o leite materno ao longo do tempo está associado a uma menor incidência para o desenvolvimento de doenças no bebê, como colesterol alto, diabetes, hipertensão e obesidade.

A amamentação, além de garantir proteção ao bebê, propicia à mãe menor chance de desenvolver anemia, câncer de mama e de ovário, diabetes e depressão pós-parto. A UNICEF estima que o aleitamento exclusivo, pelo menos até os seis meses, poderia evitar por ano a morte de mais de 1 milhão de crianças menores de cinco anos.

Entretanto, ao enfatizar a importância da amamentação exclusiva nos primeiros meses não podemos deixar de lembrar sobre a dificuldade que algumas mulheres encontram para alcançar tal objetivo, por variados motivos, desde condições sócio-econômicas precárias, doenças, dificuldades emocionais, entre outras. O apoio emocional do companheiro, do médico obstetra, do pediatra e de profissionais especializados em aleitamento materno podem fazer toda a diferença.

Tendo em mente esta triste realidade, em 1991 foi criada a Aliança Mundial para Ação em Aleitamento Materno (WABA), com o objetivo de defender a amamentação como direito das crianças e das mulheres, a ser respeitado por todas as sociedades por meio de ações de proteção, promoção e apoio ao aleitamento materno.

A primeira Semana Mundial da Amamentação aconteceu em 1992 em mais de 150 países, coordenada pela WABA até 1998. A partir desta data passou a ser responsabilidade, no Brasil, do Ministério da Saúde e realizada anualmente de 1 a 7 de Agosto.

As campanhas do Ministério da Saúde na Semana Mundial do Aleitamento Materno (SMAM) trazem o alerta de como amamentar faz bem à saúde da mãe, do bebê e também do planeta. O tema da “Semana Mundial de Aleitamento Materno 2018”, definido pela WABA, é ?Aleitamento materno: a base da vida?. Visa também, chamar atenção das pessoas sobre as metas de Desenvolvimento Sustentável (ODS), além de lembrar que ainda morrem quase 10 milhões de crianças com menos de cinco anos no mundo todos os anos.

Às mães não cabe a culpa de, por vezes, não conseguir amamentar o quanto seria desejável. Mas acho bom lembrar que todas têm o direito de exigir informações e condições para que tanto o parto quanto a amamentação sejam de fato momentos seus e do seu filho.

Veja a matéria publicada no Portal Minha Vida. 

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