A depressão pós-parto apresenta-se com as mesmas características de um quadro depressivo clássico: grande e persistente tristeza, perda de auto-estima e de motivação pela vida, fadiga excessiva e não justificada, sensação de culpa sem motivo aparente. Sua portadora poderá alimentar a idéia de suicídio, negligenciar os cuidados com o bebê, ter pensamentos involuntários de machucá-lo, de abandoná-lo, e, até mesmo, em situações extremas, causar-lhe a morte.

Existem estudos que mostram que a depressão pós-parto atinge cerca de 5% das parturientes. Na literatura médica, há a descrição de um outro quadro, o qual não pode ser confundido com o primeiro, que é o de uma depressão leve chamada pelos norte-americanos de “blues post partum”, e entre nós de “tristeza materna”.

Essa depressão leve, que atingiria 50% das mulheres, é caracterizada por um estado alterado de consciência, uma espécie de melancolia, cujos sintomas mais comuns são: irritabilidade, desânimo, desinteresse em amamentar, alterações de humor variando entre alegria e tristeza, choro fácil, perda de apetite, cansaço, distúrbios do sono etc, os quais raramente persistem após duas semanas após o parto.

Porém, com o agravamento dos sintomas e a permanência do quadro, o diagnóstico costuma ser o de depressão pós-parto, também chamada de depressão puerperal. Neste caso, os sentimentos conflituosos da mãe consigo mesma, com o companheiro e com o bebê são mais severos.

Perfis da doença

Este quadro muitas vezes está associado a condições existenciais e vivenciais da mulher, que encontra dificuldade de se adaptar à gestação ou enfrenta problemas como carência social ou financeira, desestruturação familiar prévia ou atual, repúdio pelo companheiro, pela família ou pelo meio social, antecedentes de violência sexual ou doméstica, situações que a desestabilizam emocionalmente.

A mulher que foi agredida na infância ou rejeitada pela mãe pode sofrer impacto no sistema nervoso, criando seqüelas que na vida adulta dificultarão o relacionamento com os filhos. A preservação do vínculo primordial entre mãe e cria, tanto nos humanos quanto entre os animais, é crucial para seu equilíbrio físico e emocional. É preciso “falar” com o bebê através da linguagem que ele conhece: o toque na pele. A mãe deprimida não estabelece esse contato tão importante.

Embora possa manifestar-se até um ano depois do parto, a depressão pós-parto ocorre, em geral, com mais intensidade entre o segundo e o quarto mês depois do nascimento do bebê. O quadro é conseqüência de alterações nos níveis de neurotransmissores, substâncias que proporcionam o fluxo de informações entre as células cerebrais, e são responsáveis por sensações de bem-estar, relaxamento e pela estabilização do humor.

Mulheres com alterações severas de humor, a chamada tensão pré-menstrual (TPM), têm maior propensão para desenvolver a tristeza pós-parto ou mesmo a depressão pós-parto. Quase sempre existe correlação com a história pregressa de transtornos afetivos ocorridos antes e durante a gestação.

Mulheres com histórico de depressão pessoal ou familiar, aquelas que sofreram choques por perda dos pais ou de outras pessoas queridas, ou ainda quando os parceiros são indiferentes ou ausentes, têm maior risco de apresentar a doença. Quando da existência deste quadro depressivo em gestações anteriores, a mulher tem um risco 50% maior numa gravidez futura.

Atenção redobrada

O papel da família, do companheiro e a redobrada atenção do obstetra – parceiro e verdadeiro cúmplice da mulher que espera um bebê – são fundamentais para a prevenção da ocorrência e controle adequado desse distúrbio que não raramente exige a colaboração de psicoterapeuta e a administração de drogas antidepressivas.

O quadro mais grave e dramático é representado pela psicose puerperal, que mais facilmente pode levar à autodestruição ou à eliminação do bebê (e às vezes de outros filhos), como ocorreu em 2001 nos EUA, quando Andréa Yates, uma ex-enfermeira texana, depois de apresentar depressão pós-parto em gestações anteriores, entrou em psicose e assassinou seus cinco filhos pequenos.

A psicose puerperal, apesar de mais comum em mulheres com quadro depressivo pregresso, pode manifestar-se também nas aparentemente saudáveis. A avaliação precoce da doença diminui a ocorrência de problemas posteriores, livrando a mulher de sofrimentos e garantindo uma vida feliz e saudável para mãe e filho.

Muitas vezes, o sentimento de negação ou rejeição não é muito evidente para a gestante, deixando até de existir após o nascimento do bebê. Infelizmente, em muitos casos, mães que abandonaram ou doaram seus filhos, e que após um certo tempo se arrependeram, ao querer resgatá-los ou localizá-los constatam que é tarde demais. Essa situação cruel associa-se a um sentimento de culpa que pode piorar o quadro depressivo.

Como menciona a psicanalista Maria Antoniete Pisano Motta, autora do livro “Mães abandonadas” (Editora Cortez – 2005), “o abandono é um sofrimento também para quem abandona. A mãe vive a perda como em um luto e condena a si mesma pelo que fez”. A experiência da gravidez deve constituir uma alegria e não um fardo, mas, infelizmente, não é o que sempre acontece.

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