Coluna originalmente publicada na Folha de S.Paulo, em 7/7/2004.

Antônio nasceu às 23h05, na sexta-feira passada, e seu primeiro presente foi uma audição musical. Na luz reduzida, ele recebeu de sua mãe, Maria Rita, um show particular de melodias calmas que evocavam animais, estrelas e raios de sol. Não estavam em um teatro, mas numa sala de parto. À sua frente, estava o obstetra Cláudio Basbaum, que assistia a tudo e se lembrava de Elis Regina, avó de Antônio.

Não era apenas a impressionante semelhança da voz de Maria Rita com a de sua mãe que levava para aquela sala, no hospital São Luiz, em São Paulo, as imagens de Elis. “Tinha voltado 28 anos no tempo”, diz Cláudio, um migrante pernambucano que, depois de formado em medicina em Recife, veio estudar em São Paulo, onde introduziu o método Leboyer.

Há 28 anos, naquele mesmo hospital, pelas mãos de Cláudio Basbaum, nasceu Maria Rita. Elis estava seduzida pelas idéias do médico francês Leboyer, para quem as crianças deveriam vir ao mundo sem traumas, quase como se continuassem ainda no útero materno. “Elis queria ter a filha de cócoras, como se fosse uma índia. Quase conseguiu.”

Existem mais coincidências. Aos sete meses de gravidez, Elis perambulava pelo Brasil fazendo shows e surgiram sinais de perigo na gravidez. O obstetra determinou-lhe que parasse imediatamente de trabalhar. O bebê, advertiu, estava ameaçado -foi essa mesma advertência que fez a Maria Rita, que, grávida de sete meses, dava shows e teria também de parar e ficar em repouso.

Para Cláudio Basbaum, acostumado a fazer partos desde 1960, tudo aquilo parecia um túnel do tempo. Até pouco tempo atrás, Maria Rita morava em Nova York e quase ninguém sabia de seus talentos musicais. Ela não imaginava que poderia virar uma cantora famosa, não planejava morar no Brasil nem ter um filho. No passado, dava shows em São Paulo no Supremo, misto de restaurante com casa de show e confraria de músicos instrumentais alternativos, espaço onde não cabem mais de cem pessoas.

Veio tudo de uma vez: sucesso, marido e filho. E ginecologista. A diferença é que Maria Rita foi mais longe do que sua mãe na crença do parto suave. Sob recomendação do médico, repetia algumas músicas para Antônio ainda alojado em sua barriga -e cantou as mesmas músicas quando ele nasceu para que já se sentisse em casa, mesmo estando num hospital.

Compartilhe

Facebooktwittergoogle_plusmailFacebooktwittergoogle_plusmail

Temas