1974-02_JT_miniEle é tão interessante… e como se mexe… como movimenta as mãos e as pernas esta maquininha, pensava Leonor enquanto assistia o espetáculo de seu nenê Stefan, aparecido no mundo há cinco minutos … explorar o corpo da mãe, com suas mãos gordas. Ela gostava de estar ali, passando as mãos pelo tórax do grande Stefan (três quilos e seiscentas gramas!)… e ela sentia como se estivesse passando as mãos em um peixinho (não era aquilo que tinha falado o doutor Cláudio?)… e achava tudo muito divertido… Compenetrada, dentro do ritual que o francês Leboyer previu para o parto, Leonor dizia a palavra “gostoso”, “e gostoso” – e também algo que preferia dizer em inglês – ela é tradutora e às vezes tem repentes de pescar a palavra de outro idioma – e dizia, então: Lovely, Lovely – e assim queria dizer que o grande Stefan era encantador, gracioso, atraente, fascinante, os quatro significados de lovely.

II

Pouco depois do parto, o grande Stefan e a menina Cíntia, que como ele é o primeiro nenê que chegou ao Brasil dentro das idéias do senhor Fréderick Leboyer, médico francês, foram para o berçário… onde as enfermeiras do hospital Albert Einstein estranharam que fossem assim quietos. Ou melhor: calmos. Algumas enfermeiras falavam da “técnica nova daquele francês”. Será que dá certo mesmo?

III

É preciso uma pequena história para contar porque Cíntia foi o primeiro nenê (um dia antes do grande Stefan) a nascer pelo parto do doutor Leboyer, em nossa cidade. A mãe de Cíntia chama-se Virgínia. É loira, tem 24 anos, e trabalha como secretária. Mas o importante, para o que queremos contar, é que ela é paciente do doutor Xenofonte Paulo Rizzardi Mazzini, que tem 27 anos e é obrigado a ouvir muita piada de seus colegas, no Hospital do Servidor, por causa de seu nome tão imponente, tão grego, (Xenofonte diz sempre que é culpa do pai). Pois o doutor Cláudio Basbaum, de roupas elegantes, 35 anos, cursos em Paris, e 13 anos de obstetrícia. O doutor Cláudio, por sua vez, é amigo de um jornalista que tem um nome tão eloqüente quanto Xenofonte: Hamlet – Hamlet Paoletti, e de sua mulher, Maria da Penha. Claro que todas estas relações pessoais poderiam não ter nada a ver com uma inovação científica… Mas tiveram. Tudo porque um dia Hamlet e Maria da Penha levaram a Cláudio o livro de um francês, Fréderick Leboyer. Na capa, um nenê gordo e dorminhoco. Cláudio tinha ouvido falar do livro na revista francesa L´Express, em fevereiro deste ano – “Por um nascimento sem violência”. Achou muito simpática a ideia de Leboyer. Simpática, humana, mas talvez demasiado distante de sua vida. Enfim: um livro que tinha tudo para não passar de agradável leitura.

IV

Mas o doutor Cláudio estava enganado. Era o fim de abril quando leu o livro e decidiu: vou fazer este parto. Começou a falar sobre o assunto com algumas de suas pacientes. Falava para as suas barrigudinhas que o francês estava certo, e ele errado. Não, não era uma questão de técnica. Ele sabia que a sua técnica de parto, e a técnica dos colegas, correspondia ao desenvolvimento da medicina, hoje em dia. O erro estava em outro lugar. Alguma coisa que ele mesmo nunca percebera claramente. Mas que sua mulher, Heloisa, sentiu há alguns anos, quando nasceu Claudinha. Helô ficou muito emocionada naquela hora, e pediu para ficar um pouco com Claudinha. Não deixaram. Helô ficou chorando. Carregar tanto tempo um nenê na barriga e depois ele sumir assim! Reclamou Helô.

V

Foram coisas assim que o doutor Cláudio começou a perceber que aconteciam com Helô e com as outras mulheres. O francês parecia ter razão. Ele chama de doutrinação o que começou a fazer.

– Você gostaria que seu nenê nascesse de um jeito diferente? Você não gostaria que o parto fosse melhor para ele? Uma sala diferente? Mais carinho? Você não gostaria de segurar seu nenê logo depois do parto, fazer carinho em seu corpo cheio de gordurinha? Suas mãos deveriam fazer assim, uma massagem gostosa, a mais parecida possível com os movimentos que você fazia no tempo em que ele estava dentro de você? Pense no seu nenê que vem de um mundo tão protegido, tão quentinho, e que aparece de repente, em uma sala cheia de luz, ruído e abandono (e eram coisas assim que o doutor falava para as suas pacientes)… Você vai gostar de segurar seu nenê e de dar a ele uma recepção agradável… Você se imagina com seu nenê em cima de sua barriguinha? Olha, o doutor Leboyer diz, e tem razão, que sua barriguinha forma uma cavidade que se molda especialmente ao seu nenê, mais do que a cama mais luxuosa – Várias moças gostaram da ideia e começaram a esperar a hora.

VI

Uma destas moças era a Virgínia. O relógio eletrônico do hospital marcava exatamente 16:05 horas quando Cíntia saiu de sua mãe, depois de um parto muito simples. Doutor Cláudio, sentado em um banco, esperou o cordão umbilical parar de pulsar, cortou o cordão e colocou a menina com jeito no ventre de Virgínia.

Aí neste ninho, ficou quieta, um choro repousado. Virgínia examinava Cíntia com as mãos e pensava que era um nenê muito cheio de açúcar. Os doutores olhavam silenciosos. A sala estava na penumbra, nada de luz forte (como Leboyer recomenda). Nada da cialítica, aparelho de mesa de parto e de operação. Cialítica que despeja mil velas nos olhos do nenê. Mil velas! Os doutores do parto francês, Cláudio e Xenofonte, apenas sussurravam para proteger os ouvidos do nenê.
O que é o método Leboyer? Pergunte-se ao doutor Cláudio e ele dirá que é a ciência mais o amor. Sim, a técnica do parto, em si, era justa. Mas por que não introduzir mais amor a este momento decisivo da vida? E é isto o que diz Leboyer: de nada adianta uma técnica justa… e a sala com penumbra, a ausência de ruídos, o banho no nenê – nada disto vale sem amor.

E falando em amor, o doutor lembra de tantas e tantas mães contando no correr dos anos que o parto tinha sido ma-ra-vi-lho-so. Tão maravilhoso que elas não lembravam nada, doutor, nada mesmo, não lembravam nada, não tinham sofrido nada – nada mesmo. Aí está! Por que não transformar o nada em um tudo ou em um muito?

VII

Vamos abandonar a teoria por mais um momento e espiar a sala em que Cíntia e Stefan nasceram.

Primeiro eles foram pousados nos ventres das mães, que antes haviam sido preparadas para esta missão pelos médicos, que os lavaram com fisiosex e os cobriram com um bocado de mertiolate. Stefan ficou mais calmo do que Cíntia. Saiu um choro suave para o silêncio, e do silêncio para uma observação curiosa do corpo da mãe, que pesquisou com as mãos. A mão direita subiu em direção ao seio de Leonor, que olhava seus movimentos com uma curiosidade muito grande. Tão grande que em certo momento ela resolveu ficar só olhando o nenê. Depois ela viu o doutor Cláudio apanha-lo e levá-lo para o banho, numa banheira azul de plástico. Stefan reclamou contra este passeio inesperado e só ficou mais calmo quando o baixaram na água, com a temperatura de 37 graus. Seguindo as lições de Leboyer, Cláudio baixou Stefan na água, deixou ele aproveitar uns instantes e fez ele subir um pouco e baixou novamente – e começou a gostar da água e a mexer as pernas, parecendo um bichinho de aquário. Ao redor da bacia, uma platéia animada de médicos e enfermeiras, além da avó e da tia do nenê. Aí o doutor Cláudio achou que chegava, tirou Stefan da água e ele foi apanhado por uma enfermeira. E recebeu uma roupa muito fofa e quente, especialmente preparada para ele. Assim como Cíntia, foi levado para o berçário, em uma isolete, espécie de estufa de vidro.

(O doutor Cláudio diz que não pode se imaginar fazendo outro tipo de parto. Talvez ele não consiga, em certos casos, como em uma cesariana colocar o nenê sobre o ventre da mãe, logo depois do nascimento – porque a mãe acabou de ser operada. Mas uma coisa ele promete: não fazer barulho na hora do parto e não permitir que uma luz forte bata nos olhos do nenê”. “Isto é, o mínimo que nós devemos fazer por ele”).

—–

O que o doutor sentiu? “Eu senti”.

–– O senhor concorda com todas as idéias defendidas por Leboyer em seu livro?

Dr.Cláudio Basbaum: –– Não. O que faço é diferente em um aspecto: Leboyer recomenda que a criança seja colocada sobre o colo da mãe, imediatamente após o nascimento, e com o cordão umbilical ainda pulsando. Ora, eu me preocupo com um problema, o da dessangração desta criança. Então eu modifiquei a assistência, partindo do pressuposto de que a criança, como na rotina, deve ser colocada abaixo do nível materno. Isto porque, enquanto o cordão pulsa, ele pulsa do lado fetal para o lado materno, e se eu deixar a criança mais alta, eu posso dessangrá-la. O que fiz? Peguei a criança e a deixei em nível mais baixo do que a mãe, em meu colo – e eu lhe faço carinhos neste momento. E assim ela fica até o cordão parar de pulsar. Depois, corto o cordão, e coloco o nenê sobre o ventre da mãe. Tudo isso leva um minuto, ou menos.

P –– Este seu cuidado é essencial?

R –– Sim, acredito que sim. Foi isto que aprendemos que deve ser seguido. Mas já que Leboyer está fazendo seu parto com outra técnica, há sete anos, acredito que não deve ter havido grande prejuízo para os nenês, isto é, a sua técnica não chegou a comprometer a vida destes fetos.

P –– O que o senhor pensou quando leu Leboyer?

R – Que ele tinha razão, e que nós agimos, realmente, com uma certa crueldade inconsciente diante da criança, ao não melhorar a sua “chegada ao mundo”. Veja, ele vive em um mundo morno e úmido, e é jogado subitamente em um mundo frio e seco. Ele às vezes recebe tapas desnecessários, é colocado em uma roupa pesada, amarrado como se fosse uma múmia, colocado em uma cama dura ou em uma balança mais dura ainda. O que Leboyer tenta – eu acho que ele tem razão – é minimizar este sofrimento, dar ao nenê algumas gratificações.

P –– Ao mesmo tempo, o senhor se preocupa muito com o ângulo da mãe, ao contrário de Leboyer, que se coloca exclusivamente do ângulo do filho.

R –– Sim. Eu acho que é uma coisa muito errada o que se faz geralmente – ou sempre: apanhar o nenê, que a mãe levava consigo com tantos cuidados, e subitamente retirá-lo da sala. Eu comparo isto com o brinquedo de Natal que uma criança vislumbra na mão do pai, mas que só poderá pegar muito depois. Apanham o brinquedinho da mãe… e levam embora. Isto prejudica a relação da mãe com o filho, se prejudica! Além do mais, quase sempre a mãe é levada a uma posição absolutamente passiva na hora do parto. A mãe fica indiferente ao que está acontecendo – aí está o erro. Quando muito ela pergunta: “doutor, ela está perfeitinha?”. Outra coisa que acontece é o nenê ser levado para os primeiros cuidados, e voltar embrulhandinho na mão da parteira ou do pediatra. Aí abrem as perninhas da criança para mostrar se ela é macho ou fêmea… Eu penso que com esta outra concepção de parto, nesta hora tão importante, abre-se uma possibilidade para a mãe já fazer alguma coisa pelo nenê… de ser mais ativa… e de estabelecer uma relação mais densa com ele, a partir daquele instante. O que eu senti na fisionomia das duas mães, a Virgínia e a Leonor, foi uma grande vibração e felicidade… Elas estavam realmente apaixonadas pelos seus nenês, e não indiferentes. O que eu sinto é que o parto Leboyer permite uma grande assistência à criança do ponto de vista mais biológico – a criança é cercada por novos cuidados que se acrescentam a tudo o que a ciência alcançou – enquanto que da parte da mãe, há um peso psicológico porque a mãe está dando conscientemente carinho e amor à sua criança.

P –– O que o senhor sentiu fazendo este parto?

R –– Uma coisa que não conseguia há muito tempo: sentir.

—–

Uma coisa que todo mundo via… e não via, conclui o psiquiatra

O psiquiatra MT conversou com o doutor Cláudio Basbaun… e com as duas pacientes que fizeram o parto Leboyer. O que tem a dizer?

P –– Que impressão obteve em seu rápido contato com as mães submetidas ao parto Leboyer?

R –– O que observei é que elas estavam extremamente gratas ao obstetra. Elas parecem muito gratificadas, felizes. Eu senti que elas tinham conseguido satisfazer toda a curiosidade em torno de “como o filho era”… e estavam ao mesmo tempo aliviadas de todos os temores que qualquer mãe alimenta durante o período da gravidez. E elas conseguiram, afinal, esta curiosidade não só olhando a criança, mas tocando, apalpando, sentindo… Eu acho interessante que o Leboyer tenha conseguido perceber uma coisa que todo mundo via… e não via. Afinal é só olhar a natureza; qualquer animal, após o parto, procura, logo depois do nascimento, proteger os filhotes, lhes dar carinho, etc. Mas o parto tradicional se reveste, em certos aspectos, de um toque sádico. Veja só, é como se um pintor ficasse muito tempo pintando um quadro e quando ele concluísse a obra, alguém se aproximasse dele, apanhasse o trabalho, e dissesse: “bem, agora o senhor só poderá ver a obra numa exposição”.

P –– É possível pensar em que tipo de repercussão psicológica o parto Leboyer trará?

R –– Se fosse pensar na criança isoladamente, não afirmaria que esta técnica pode levar a uma modificação psicológica muito significativa. Porque as dificuldades inerentes ao nascimento continuam existindo, sendo apenas atenuadas. Como se sabe, a criança vive, no interior da mãe, uma situação de equilíbrio perfeito (estou pensando em uma criança normal, naturalmente), e abruptamente este equilíbrio é rompido. Ora, neste momento, a criança é levada a um grande esforço… e todo este esforço vai levá-la a um mundo cheio de estímulos não adequados. O que este tipo de parto evita, é, tanto quanto possível, esta imediata inadequação dos estímulos sonoros, luminosos, etc.

P –– E quanto à mãe?

R –– A mãe vai se adaptando durante um longo tempo à idéia de que carrega um ser dentro dela… A própria imagem interna que tem de seu corpo vai se modificando… Subitamente, vem o parto, e a mãe vive, momentaneamente, uma sensação de perda… ela perde a criança e perde a forma do corpo… Tudo isto sem nenhum ganho imediato, porque a criança é levada para fora da sala do parto. Eu imagino que a transição que o parto Leboyer permite é realmente importante, porque a mãe que tinha a criança dentro de sua barriga poderá aconchegá-la sobre sua barriga… naquele primeiro momento tão marcante… Eu tenho a impressão que este momento impede uma ruptura muito brutal e desejável para a mãe. Outro ponto importante é o contato pele a pele, mãe e filho, tão recomendado pela psicanalista argentina Arminda Berasturi. De qualquer maneira, penso que a ênfase do parto Leboyer não se dá na mãe ou no filho… mas sim na unidade que eles constituem.

—–

É preciso muito pouco: amor

“No fim das contas, ou do conto, só posso dizer: Experimentem.

Tudo o que foi dito aqui é simples. Tão simples que temos vergonha de insistir.

Talvez tenhamos perdido o gosto pela simplicidade.

Sim, é preciso tão pouco! Nada de orçamentos caros, recursos eletrônicos, orgulhos da tecnologia, brinquedos de crianças crescidas, tão furiosamente na moda.

Nada disso.

Apenas paciência e modéstia. Silêncio.

Uma atenção leve, mas sem falhas. Um pouco de inteligência, de preocupação com o outro. Esquecimentos de si mesmo.

Ah! Já ia deixando passar…

É preciso muito amor.

Sem amor, vocês não passarão de bem intencionados.

A sala de parto pode estar perfeita, com a iluminação necessária, paredes à prova de som, temperatura do banho no ponto certo, e, ainda assim, a criança continuará a berrar.

Peço que não condenem o método.

Vejam, antes, se não permanece em vocês um pouco de nervosismo. Algum mau humor, alguma impaciência. Uma raiva escondida.

A criança não se engana.

Vocês serão julgados com uma segurança miraculosa e terrível.

A criança sabe de tudo. Sente tudo.

Vê até o fundo do coração. Conhece até a cor de seus pensamentos.

Tudo isso sem uma linguagem especial.

O recém-nascido é como um espelho. Reflete sua imagem. “Depende de vocês não fazê-lo chorar”.

(Do livro “Nascer Sorrindo!, de Fréderick Leboyer, lançado recentemente no Brasil, pela Editora Brasiliense).

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