Cláudia MirandaA simplicidade era o caminho. O amor, o segredo. E assim, com mãos firmes, seguras e carinhosas, ele ajudou a nascer mais de dez mil crianças. Um obstetra francês que se apaixonou pela Índia, deixou-se atrair pela filosofia hindu e, depois de algumas viagens ao país, acabou trazendo para o Ocidente um pouco da sabedoria oriental. O ano? Foi no fim de 1969, quando Frédérick Leboyer deu o primeiro passo para o que significaria uma verdadeira revolução na forma de se conceber e realizar os partos no mundo inteiro. Estava aberta a polêmica, que dura Até hoje, 20 anos depois.

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“Quanta insensatez!”. Comentaram muitos. Depois de todo o avanço da medicina, em que as maternidades começavam a ser equipadas com aparelhos cirúrgicos de alta tecnologia, como poderia surgir alguém propondo a volta de um parto mais natural, sem tantos aparatos médicos, feito, de preferência, em casa, num ambiente mais calmo, tranquilo, sem as luzes fortes e o barulho das salas de cirurgia? Suas ideias, embora tão antigas quanto a humanidade, chocaram uma época. De médico conceituado, logo após expor a sua teoria, Leboyer passou a ser considerado, não só nos meios obstetrícios ortodoxos como também por parte da imprensa, um charlatão.

“Será que o pequeno ser humano não tem a ventura, o mesmo direito, como qualquer filhote de mamífero, de ser recebido com calor e ternura e de se orientar lentamente no novo ambiente?”, ele se perguntava. “O grande mérito de Leboyer foi justamente esse: ter se preocupado com a criança”, diz o obstetra Dr.Paulo Belfort. “Ate então a atenção e os cuidados dos médicos voltavam-se quase que exclusivamente para a mãe. Tanto o feto era tratado nos textos especializados mais ou menos como um objeto, parecia até que não falavam de seres humanos.” A discussão começava. Para botar mais lenha na fogueira, Leboyer lança, em 1974, o livro Nascer Sorrindo, onde mostra como as crianças deveriam chegar ao mundo, propondo uma volta às origens, aos partos feitos há milênios na Índia, menos violentos, sem dor.

A partir daí, ele começa uma peregrinação por diversos paises para difundir as suas ideias. Chega ao Brasil nesse mesmo ano. E, como em outros lugares, e repudiado por alguns e ignorado por outros, mas conquista também muitos adeptos. E mesmo aqueles que consideram Leboyer um idealista, apenas um sonhador, são unânimes em afirmar: depois dele, nada mais oi o mesmo na obstetrícia.

Mais que um novo parto, uma filosofia de vida

“O inferno existe. Não e obra do imaginário. E nele as pessoas realmente queimam. Esse inferno não está no fim da vida, nem depois. Está aqui. No começo. O inferno é o que a criança tem que passar para enfrentar o mundo.” E assim, ele começa no seu livro a descrever a violência e os sofrimentos impostos ao recém-nascido.

Fala do excessivo barulho das salas de parto, para um ser que estava acostumado quase ao silêncio. Indigna-se com as luzes fortes que ofuscam os olhos de quem viveu até então num ambiente escuro. E, como se não bastasse, o prêmio que o pequeno recebe, logo ao nascer, depois de todo o esforço que faz: uma sonora palmada. Como não estranhar o novo mundo?

“Essa fronte trágica, olhos fechados, sobrancelhas erguidas, tensas. Essa boca que grita, a cabeça que se vira e tenta escapar… Essas mãos que se estendem, imploram, suplicam… Esses pés que empurram furiosamente, as pernas que procuram proteger o frágil ventre… Então, não fala o recém-nascido? Alguém já fez apelo tão enternecedor?” E aí estava o cerne da questão colocado por Leboyer. Se o bebê sofre, é sinal de que tem sentimento. Um ser pequenino, sim, mas todo emoção. Por que então só se preocupar em aliviar as dores da mulher nesse momento? A criança não tem direito à mesma atenção?

Para tanto, ele propõe um parto diferente, especialmente preparado para receber essa pessoinha. Afinal, ela merece nossas boas-vindas. Na sala de parto, “escuridão, ou quase silêncio… A paz se instala profunda, sem que cheguemos a perceber. E se instala também o respeito com que deve ser acolhido o mensageiro que chega, o bebê. Em uma igreja não se grita. Instintivamente baixamos a voz. Se existe um lugar santo é aqui.

Escuridão, silêncio, o que mais é preciso? Paciência. Ou, mais exatamente, o aprendizado de uma extrema lentidão. Próxima à imobilidade. Aceitar essa lentidão, penetrar nela, retardar-se é ainda um exercício, exige uma preparação. Tanto para a mulher como para os que a assistem. Tudo está pronto: penumbra, silêncio, recolhimento. O tempo parou, a criança pode chegar.“

Pura poesia, talvez. Mas, também, a experiência dos partos que trazia na bagagem. Uma filosofia de vida que não acabava na sala de cirurgia. De nada adiantaria ao bebê ser bem recebido no mundo se depois, relegado a segundo plano, não continuasse sendo tratado com a mesma dedicação e respeito, ele acreditava.

“Leboyer foi além”, diz o Dr.Paulo Belfort, que o recepcionou no Rio de Janeiro, na época em que veio ao Brasil. “Ele nos disse em suas palestras que a criança deveria ficar ao lado da mãe durante dois anos, sem interrupção. A mulher, então, só se dedicaria ao filho. Uma quimera, a nossa sociedade não permite tamanha disponibilidade. O que devemos ter em mente é a sua proposta: não só uma nova forma de realizar os partos, mas, principalmente, uma filosofia de vida. Crianças bem assistidas se tornam adultos mais felizes que, consequentemente, formam uma sociedade menos opressiva. Como todo idealista, Leboyer foi mais longe do que a realidade poderia acompanhar. Mas, como um revolucionário, embora sonhador em muitos momentos, lançou a semente para mudanças bastante positivas.”

No Brasil, aconteceram poucas transformações

Depois da surpresa inicial, uma pausa para a reflexão. E os médicos de todo o mundo começaram a pensar num parto mais humano. Radicalismos à parte, nada se transforma de uma hora para outra e – Leboyer em muitos momentos sonhou alto – o amor passava a entrar em cena. A árvore estava plantada e dela já podíamos colher os primeiros frutos. A psicologia entrou na polêmica e começou a discutir os traumas futuros que um nascimento violento, sem cuidados, poderia causar. Foi a partir daí também que alguns médicos passaram a levar os pais para assistir ao nascimento do filho. A reunião da família. Um objetivo atingido: o parto mais humano, como a criança merece.

Palmadas abolidas. Por que então não cortar o cordão umbilical um pouco mais tarde, quando deixasse de pulsar? Outro ponto levantado pelo obstetra. Assim a criança se separaria definitivamente da mãe de uma forma mais lenta, menos dramática. O bebê passa então a ser considerado alguém com vida própria, sentimentos únicos. Essa a grande contribuição de Leboyer, a transformação da medicina. Hoje, 20 anos depois, muitos itens ainda dão margem a discussões. A obstetra Tânia Costa Rego acha que essa foi uma boa oportunidade para trazer à tona algumas questões.

“No Brasil, por exemplo, só as clínicas particulares promoveram mudanças no sentido de tornar o parto mais humano”, afirma. “Mesmo assim, existem inúmeros hospitais que não aceitam o pai na sala de parto, uma presença que considero fundamental nesse momento. E em termos de saúde pública, quase nada mudou. As mulheres continuam sem assistência correta e as crianças nascem em condições ainda muito precárias. Essa transformação radical só se tornou possível nos países desenvolvidos, onde se trata a saúde com respeito e os recursos financeiros são suficientes para o atendimento da população.”

A obstetra dá o exemplo da Suécia, onde a mulher faz um pré-natal de primeira qualidade no próprio hospital. “Na hora do nascimento, ela liga para a casa de Saúde e o médico, acompanhado de uma enfermeira, vai com a ambulância a seu encontro”, ela conta. “Se tudo estiver bem, o parto acontece ali mesmo, na própria residência. Nos dias seguintes a mãe e a criança são assistidas pelos profissionais de saúde e ainda recebem a visita de uma assistente social, que vai oferecer seu apoio e a ajuda do governo. Quando isso será possível em nosso país, se formos considerar as condições da nossa população?” – se pergunta a Drª Tânia.

Há realmente muito a ser feito no Brasil. “Diante de tudo o que Leboyer falou, há um longo caminho a trilhar”, concorda o Dr.Paulo Belfort. “Quem tem poder aquisitivo pode escolher a forma de realizar o seu parto, enquanto que as mulheres das classes menos favorecidas com frequência são assistidas por médicos que nunca viram antes. Sem falar que a equipe de saúde, mal-remunerada, muitas vezes também não lhe dá a atenção que merece. Isso tudo precisa mudar e Frederick Leboyer, certamente, não deve ter pensado em situações tão precárias quando começou a sua luta. Na França era bem diferente.”

As crianças merecem um nascimento digno

Junto com Leboyer, o próprio movimento feminista, também a partir da década de 70, ajudou a cristalizar as transformações. “Principalmente nos países ricos, as mulheres passaram a ter mais consciência dos seus direitos. Sinto nesses lugares uma tentativa de se retornar a uma forma mais primitiva de nascimento. Os próprios partos alternativos, hoje em dia, são olhados com mais atenção”, diz a Drª Tânia Costa Rego. “Aqui no Brasil também temos que levantar com mais ênfase essas bandeiras. A mãe deve exigir o alojamento conjunto – é muito importante para a criança estar perto dela nesse primeiro momento – um tratamento digno. Para isso, basta um ambiente simples, mas humano, repleto de amor. Tudo muito tranqüilo. Existe um grande exagero na medicalização excessiva do parto. Ele não é um acontecimento cirúrgico, como se a mulher estivesse doente e fosse submetida a uma operação. Ao contrário, trata-se de um momento especial, onde se celebra a chegada de uma nova vida. Os médicos, também, precisam ter consciência disso para deixarem de fazer tantas cesarianas sem necessidade.”

E o Dr.Paulo Belfort complemente: “A meu ver, a grande contribuição de Leboyer foi a humanização do parto.” Idealista, sonhador ou revolucionário, não importa. Fundamental é manter a chama acesa para que esta luta não morra jamais. Nossos filhos, netos e bisnetos merecem um nascimento digno, humano. Quem pode se opor? Trata-se de um direito de todos nós.

Para os seguidores um começo difícil

Há 16 anos em São Paulo o Dr.Cláudio Basbaun faz partos de acordo com as ideias de Leboyer.

Quando resolveu inovar as técnicas de parto, utilizando as ideias de Frédérick Leboyer, o brasileiro Cláudio Basbaun foi advertido pelo próprio obstetra francês: “Você vai ser muito perseguido e atacado.” Em plena década de 70, do amor livre e do faça amor, não faça guerra, a classe média do país ainda não estava realmente preparada para dar as boas-vindas ao bebê na hora do nascimento.

Um começo realmente tortuoso. Por contrariar a ortodoxia, Basbaun foi acusado de montar um circo; os pediatras queriam tirar as crianças de suas mãos logo depois do parto. A situação chegou a tal ponto, que o obstetra teve que assinar várias fichas de pediatria, assumindo inteiramente a responsabilidade pelos seus partos.

Hoje, 16 anos depois, as ideias do obstetra francês finalmente foram aceitas. Um hospital que havia expulsado Basbaun reabilitou-o mais tarde, com menção de honra ao mérito por seu trabalho. Atualmente, comenta ele, mesmo as mulheres que escolhem outros métodos na hora do parto exigem dos médicos e de sua equipe uma atitude mais doce e terna. “As mães não são mais submissas, e não admitem que os médicos assumam uma atitude prepotente, de domínio, no momento do nascimento de seu filho.”

Não existe o método Leboyer, o Dr.Cláudio Basbaun faz questão de enfatizar. “Leboyer não é uma forma de parto, mas uma ideia de nascimento. É a forma de acolher o pequeno para minimizar o trauma de sua chegada. Procuramos fazer com que o momento tenha clima, astral.”

Foi como se Leboyer tivesse lançado uma semente, que germinou e se desenvolveu. Basbaun adaptou as ideias do obstetra francês lutando, por exemplo, pelo alojamento conjunto: “Meus bebês vão para o quarto da mãe”, enfatiza ele, com orgulho. Colocar músicas suaves quando eles nascem e o aleitamento exclusivo também são práticas comuns aos partos que Basbaun faz. Os pequenos vão para o seio da mãe logo depois do nascimento, dentro ainda da sala de parto. Isto, além de estimular desde cedo a produção de leite, ajuda a contrair o útero mais rápido, sem necessidade de injeções após o parto.

Outra conquista da qual não abre mão é a presença do pai na sala de parto. É indiscutível que ele deve participar, ajudando e dando apoio na hora em que seu filho nasce. A postura pessoal médico e paramédico também se modificou. “O obstetra tem que, na hora do parto, ser um cúmplice do casal diante de uma situação nova. Ele tem uma responsabilidade muito grande, como um honrado convidado na festa de chegada de uma criança.” comenta Basbaun. Essa postura humanizada foi conciliada com os aspectos científicos existentes na atualidade. Para o obstetra brasileiro, “o médico realmente sensível renasce a cada nascimento”. Essa nova forma de conceber o nascimento valoriza também os aspectos psicológicos do bebê. “A criança hoje é vista como um ser humano sensível, antes mesmo do parto.”

Mesmo com tantos pontos positivos, as ideias do Nascer Sorrindo de Leboyer, que Basbaun também defende, não tomaram conta de todo o mundo. Por quê? O obstetra brasileiro responde: “O método não é universal pelas dificuldades que o médico, como ser humano, tem para encarar e se confrontar com o mistério da vida. Isto ainda o assusta. Na verdade, é ele, o médico, que está com a respiração difícil, e não tem a serenidade suficiente para o momento. Ele não pode dar o que não possui.” (Márcia Gimenez)

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