1974-05_UH_miniFrederick Leboyer, o ginecologista que propõe uma nova filosofia para o parto, travou contanto com uma infinidade de pessoas, deixando a impressão de ser, muito mais que um obstetra, um reformador. Isto é, um home que, através da poesia e do pensamento, elabora ideia concretas para a transformação do mundo. E a sua ideia básica é de que importante mesmo é a criança. Principalmente na hora do nascimento.
Jorge da Cunha Lima

“Importante são as crianças”

Um sorriso no mais importante momento de uma vida

Imagine-se uma criança acostumada ao delicado tecido de uma placenta, ao calor liquido daqueles envolvimentos, respirando através de sua mãe, acomodado na imponderável cápsula do ventre, protegido pela clara obscuridade daquele “habitat” inesquecível, ser, de repente, tirado com a maior violência por um túnel estreito, e exposto a luz, suspenso pelos pés, repuxado em sua espinha dorsal, levar um tapa nas costas, respirar por si mesmo provocando uma explosão de sangue nos pulmões, ser lavado por liquido farmacêuticos frios, escutar o barulho desrespeitoso de uma sala de parto, ser enrolado num tecido grosseiros e por fim afastado de sua para o anonimato anti-séptico de um berçário.

Funde a cuca de qualquer cristão.

Pois todas essas constatações estavam na mente do Dr. Frederick Leboyer, quando ele descobriu o ovo de Colombo. Todo mundo sempre se preocupou demais com a mãe na hora do parto e se esquece que aquele é o momento crucial da vida de um homem, não o que está fumando desesperadamente na sala de espera, mas do pequeno homem que está nascendo: o nenê. Aquele é o momento mais importante de sua vida. E é preciso trazê-lo à vida com um processo menos cruel de adaptação, atenuando-lhe o início desse mandato, sem precedentes, que é a vida de um ser humano.

Por exemplo: diminuindo-se a luz da sala do parto, sem colocar-se de forma alguma àquele farol inquisitorial em cima do nenê. Lavando-se a criança em água com a mesma temperatura da placenta. Colocando-se, por quantos minutos sejam possíveis, a criança encostada ao colo da mãe, envolvendo-a com os mais delicados tecidos. Manipulando-a diretamente com mãos sem luvas. E sobretudo, não se tapeando o recém-nascido, pela ação brutal e subversiva das “nurse” nem os distanciando demais do quarto onde se encontra a mãe, único conforto de uma criança na hora da verdade.

Um poeta: portanto, um homem acima de qualquer suspeita

Com o brilho intelectual de um francês e a tranquilidade espiritual de um hindu Leboyer tem qualquer coisa de profético em seu rosto coberto por cabelos brancos. Um médico brasileiro depois de algumas horas de contato afirmou deslumbrado:

“Durante muitos anos esse homem será lembrado como aquele que mudou um pouco o nosso século, porque mudou a direção do homem”.

De fato, Leboyer nos dá essa impressão, talvez porque tenha a força tranquila de um praticante de karatê, a saúde contida de quem não come muita carne, e o espírito aguçado de quem frequentou o Ganges e seus monges com uma certa assiduidade.

“O grande problema do nosso tempo é que os homens estão vivendo a aera dos objetos. Estão muito submissos a eles”. Afirma. Ele acha mesmo que o homem nunca foi infantil em toda a história da humanidade. Quando este século começou, o homem continuou inventando uma porção de brinquedos como o automóvel, o telefone. Eram brinquedos de sua imaginação. Depois o homem começou a levar esses brinquedos a sério. Dai veio o tempo em que tudo isso se transformou em produto. E o homem transformou-se num escravo do próprio brinquedo. Apenas continuou infantil.”

E conclui sua ideia analisando o fato de que quanto mais aumenta o congestionamento, da mesma forma que o desenvolvimento das telecomunicações diminuiu sensivelmente a comunicação entre os homens. Os hospitais então, se transformaram numa fonte de doenças, assim como os remédios quanto mais se aperfeiçoam mais assistem ao aumento de pacientes incuráveis. As maternidades para Leboyer são uma catástrofe. Quanto mais anticépticas , mais liquidam com o destino de uma criança.

O discípulo brasileiro: “Nós precisamos de filósofos na Medicina”

Neide Martins

Robert, 14 anos, aguardava na ante-sala o seu psiquiatra. De repente, levantou-se. Caminhou nervosamente de um lado pro outro e começou a fala nervosamente em dois tons de vozes diferentes. As vozes, agora, eram de mulheres. A discussão, entre as duas, era acirrada.

Ao abrir a porta da sala o psiquiatra ficou surpreso com o acontecimento e o comportamento do garoto. Sem explicações para o fato o médico chamou a mãe de Robert, que, pálida de constrangimento, explicou que o menino era seu filho adotivo – na realidade, filho de uma mãe solteira. Aquele acontecimento só tinha uma explicação: com três dias de vida, ainda no hospital, a mãe de Robert, uma jovem de 18 anos e sua avó de sangue, tiveram uma discussão violenta a respeito da amamentação e adoção da criança. Registrado em sua memória, depois de tantos anos, inconscientemente, Robert revivia aquele acontecimento, com prefeito reconhecimento, imitando até mesmo as vozes originais, momentos antes de falar com o seu médico.

Esta é uma das muitas histórias do Dr. Cláudio Basbaum, especialista em Ginecologia e Obstetrícia, o primeiro discípulo brasileiro de Frederick Leboyer.

Modificando hábitos

Embora não seja um discípulo direto de Leboyer, Cláudio Basbaum adotou na prática, todas as experiências do médico francês, que consistem basicamente, em realizar um parto mais sensível e humano, modificando alguns hábitos, considerados por ele, agressivos.

“O Dr. Leboyer – explica Basbaum – não tem especificamente alunos, ele tem pessoas que, naturalmente, são influenciadas pelo seu novo método que é totalmente baseado na filosofia hindu. Eu estou pondo em prática as suas ideias, não porque eu esteja “influenciado” mas porque também acredito que seja, na realidade, um processo mais humano. É um trabalho de experiência comigo mesmo, uma vontade e força interior, que vai nascendo de dentro pra fora. Eu apoio totalmente a sua ideia de que a forma tradicional de receber uma criança, no período em que ela passa da vida intra-uterina à vida normal, é muito agressiva, em todos os detalhes: na manipulação, nos movimentos rápidos, no excesso de barulho, de vozes, de luz. É uma coisa tão simples de se observar. Leboyer é uma criatura maravilhosa: ele, pessoalmente, transcende, a tudo aquilo que disse em seu livro. Além disso, nós precisamos de filósofos na medicina”.

Luvas não são necessárias

Um dos pontos que Leboyer defende em sua técnica é a não necessidade, por exemplo, do médico utilizar luvas no momento do parto. A insistência das pessoas em argumentar que hábitos simples como esses que a medicina já disciplinou de conhecimento, Basbaum defende:

“Absolutamente – diz ele – as luvas não são necessárias. Os dedos têm muito a transmitir no novo ser que está nascendo”.

Sem ter nunca praticado Yoga, ter tido qualquer contato com a filosofia hindu, Basbaum descreve a criança recém-nascida como uma massa de cera virgem, onde todas as impressões, desde o momento em que nasce, ficam registradas. Em sua clínica particular recebe diariamente futuras mães que desejam o parto pelo novo método do Dr. Leboyer. Aquelas que não conhecem, Basbaum insinua e recomenda a leitura do livro “Nascer Sorrindo”, e no final, todas acabam concordando. Mostra algumas fotos em que os bebês, nas suas experiências recentes, apresentam uma expressão facial tranquila, mãos e braços abertos.

“Veja, são crianças que não tem medo. São completamente diferentes das demais, que, geralmente, nascem nervosas, com medo. Veja esta, na posição do próprio Yoga, tranquila. Toda criança chora ao nascer, mas se não são agredidas, param em seguida, dando lugar à tranquilidade.”

Leboyer já foi criticado por dar muita ênfase à criança e não à mãe. Neste aspecto, Basbaum declara que o seu enfoque é um pouco diferente.

“A minha posição é do meio termo. As mesas coisas que são oferecidas à criança, precisam também gratificar a mãe. E o contato imediato com o filho é uma coisa necessária, porque a mãe cria um “insight” positivo, de descarga emocional de carinho. Ela deve participar realmente do instante que normalmente ela esquece depois, pro resto da vida. Naquele momento, ela deixa de ser a reprodutora para sentir o nascimento do filho. Os berçários foram criados para facilitar o atendimento, é um negócio comercial. No artesanato tudo é mais humano. Na França, a mãe já é colocada no mesmo quarto da criança. Depois tem outro detalhe: se há uma preocupação com o preparo da gestante, do recém-nascido ocupar o berçário, se os psicólogos já estudam até mesmo o comportamento da vida intra-uterina, porque não damos importância à este hiato, que é o parto?”.

Uma filosofia ampla

A filosofia de Leboyer é muito mais ampla. As suas ideias e razões para a criação de um novo método do parto, se baseiam ao tipo de análise a que se submeteu, feita por um guru. Morou durante muitos anos na Índia e conviveu com um guru, tendo a sua análise complementada na França. Basbaum conheceu, pessoalmente, o médico francês há poucos dias numa reunião em São Paulo, e daí pode tirar mais conclusões.

“O meu contato até então tinha sido somente com a obra de Leboyer. Agora conclui o seguinte: a obra é uma coisa e ele é outra. Ele é um todo, de uma beleza interior mais incrível e mais humana, apesar do livro ser muito bonito. Se a adoção dessa filosofia seria possível na medicina? Creio que sim. Nada impede que um obstetra moderno seja dotado também de carinho. Leboyer diz que “nada adianta seguir uma rotina de técnica. Trata-se apenas de uma filosofia de assistência à criança no momento do nascimento. Não sei se ela vai revolucionar todo um sistema, mas é uma técnica que deve ser adotada individualmente. Nós temos que “ser” mais do que “ter”. O médico, hoje desde o momento em que ele entra na faculdade passa a ser tão solicitado que não encontra mais tempo pra nada, nem pra ele mesmo. Ele não consegue parar pra pensar e se tornar gente, torna-se um ser mecânico, autômato. O médico é muito bisturi, muito sangue. Já me perguntaram o que eu sinto quando estou fazendo um parto por este método. E eu respondi: eu apenas senti, porque normalmente nunca sentimos aquilo que estamos fazendo. A rotina é uma coisa que esmaga.”

Os médicos estão gritando

Sobre a validade científica ou não do método, Basbaum explica que há uma grita geral entre os médicos que pensam que a criança, por este método, encontra dificuldades de ordem respiratória. Ele se defende, dizendo que há muita falta de compreensão. Que mesmo no seu trabalho prático e de divulgação do novo método encontra dificuldades não entre as pacientes, mas entre os próprios colegas:

“Toda criança ao nascer, chora uma ou duas vezes e depois respira normalmente. O célebre “tapinha” no tórax da criança nem sempre é usado. Quando nasce, ela precisa respirar, portanto, o que está acontecendo é uma incompreensão por parte dos médicos”.

Basbaum ainda não tem a experiência comprovada do comportamento da criança que nasce sob o novo método. Ainda não houve tempo. Leboyer vai iniciar um levantamento do seu trabalho, agora, na França, e Basbaum espera se comunicar com o médico francês, para adotar o mesmo sistema de pesquisa aqui, num trabalho coordenado com psicólogos e sociólogos. Em termos práticos de Yoga Basbaum ainda não se sente atraído, mas afirma que dentro de pouco tempo vai passar a fazer exercícios, tanto físicos como mentais. “A necessidade – diz ele – precisa vir de dentro pra fora”. Acredita que se todos os médicos adotassem a nova filosofia, poderia vir ao mundo pessoas mais saudáveis e menos problemáticas:

“A criatura, ao nascer, é uma esponja. É um ser vivo e sensível, aberta para todas as impressões. Se a nova filosofia vai causar uma revolução ou não, ou se todos os casos que ouvi até agora contados por Leboyer realmente são consequentes da forma de nascer usada até agora, não podemos confirmar. Os casos estão ai. Os estudos de Melaine Klein provam muita coisa. Até mesmo em trabalhos de grandes escritores, muitos episódios são relatos de fatos que passaram com o próprio e que permaneceram registrados na memória. É o caso de Zola, pesquisado por Leboyer. Ele deixou em sua obra muitos fatos que se passaram com ele mesmo, em tempos remotos, quando criança e ainda não tinha a consciência desenvolvida para captá-los. Mas muitas coisas ficaram em sua memória e foram contadas, por ele, inconscientemente…

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