Faça do seu parto uma festa

É sempre o mesmo maravilhoso milagre de uma nova vida. Acolher o bebê nesse mundo estranho é também uma ciência, uma arte e, antes de tudo, uma demonstração de carinho. Da qual todos da família, podem e devem participar.

O mundo líquido em que ele vive, é quente, gostoso, aconchegante. Os ruídos são amortecidos, tudo muito calmo. De repente ele é retirado, puxado para fora, trazido para um ambiente frio, de luzes fortes e ruídos estranhos. E virado de cabeça para baixo e agredido com um tapa. Envolvido em tecido áspero para sua pele fina e jogado em um berço desconfortável.

O choque é terrível, ele fica atordoado, traumatizado. Uma experiência que o acompanhará a vida toda. É assim que é tratado o bebê ao nascer. Uma experiência tão terrível como quem é submetido a um interrogatório sob fortes luzes e agredido. Há séculos é assim que os bebês vêm ao mundo. Um mundo frio, sem conforto nem carinho. Separado da mãe, atendido por enfermeiras que, por mais capacitadas que estejam, jamais substituirão o carinho materno.

O nascimento, o grande milagre da vida, acontece entre as paredes pouco acolhedoras de um hospital. Com o pai mantido longe, como se nada tivesse a ver com o que acontece. E a mãe que já sofre o medo transmitido através de gerações – sempre lhe disseram que não existe dor mais terrível que a do parto – fica mais apavorada com os médicos e enfermeiras que a rodeiam. Tudo impessoal, frio e distante, restos ocultos por uma máscara, os instrumentos cirúrgicos parecendo sofisticados instrumentos de tortura.

Geralmente a mãe não vê o filho nascer e ele logo é afastado de seu lado. Mais tarde a enfermeira traz a criança e permite que segure por alguns instantes o filho que, em seguida, é levado para longe. Por isso, o parto que deveria ser uma festa – uma festa da família – é considerado pela maioria das mulheres como um dos momentos mais terríveis de suas vidas. Para elas, o nascimento de um filho é sinônimo de dor.

No tempo em que as crianças nasciam em casa e não no hospital, o parto era um acontecimento em família. Apesar das condições precárias – parteiras geralmente, em lugar de médicos – a mulher pelo menos era confortada pela presença do marido. Como acontece ainda em algumas cidades do interior.

Depois, com o avanço da medicina os partos passaram a ser realizados nos hospitais. E chegou a um ponto em que a cesariana, cirurgia no início realizada em casos extremos, foi adotada por uma grande maioria de médicos, mesmo quando não é necessária.

Com Leboyer, o parto ideal

Tudo isso mudou quando um médico francês, o professor Leboyer resolveu que esse trauma era absolutamente desnecessário. A criança poderia nascer sem luzes fortes, sem pancadas, sendo colocado sobre o ventre da mãe, depois banhada em água morna. Ela vai com a mãe para o quarto e não há trauma, dor ou susto. Enfim, o parto ideal.

Na França onde ele já usado há algum tempo, segundo o depoimento de várias mulheres, é a única forma humana e racional de uma criança nascer.

Em São Paulo, em Santo Amaro, a Clínica Tobias que usa um método semelhante ao Leboyer e o médico Cláudio Basbaum, que usa o método Leboyer são os mais conhecidos. Mas, segundo o doutor Cláudio, que há quatro anos realiza partos dentro desse sistema, o número de médicos que o adotam está crescendo, “porque é o mais lógico, uma simples questão de bom senso”.

O que o doutor Cláudio prefere chamar de “nascimento sem violência”, é uma volta à naturalidade:

– Não há mistério nesse método, é uma volta à naturalidade. É apenas fazer com que o nascimento volte a ser uma cerimônia, um ritual que comemora uma nova vida, um milagre que até hoje me comove como se fosse a primeira vez. É receber bem a criança, com a dignidade, amor e carinho que ela merece.

E nessa cerimônia, que é uma festa da família, o doutor Cláudio não permite que o pai fique marginalizado.

– Comigo – diz ele sorrindo – o pai também fica grávido, passa com a mulher todas as etapas da gravidez e assiste o nascimento do seu filho. Mas não forço ninguém. Tem que ser espontâneo, tem que partir do próprio homem o desejo de ver seu filho nascer. O que não permito e desaconselho é a presença de outros membros da família, como irmãos menores. Talvez numa sociedade onde as crianças tenham um nível maior de cultura, de sofisticação, isso possa ocorrer. Mas aqui não. Criança não é um adulto em miniatura e o fato de presenciar um parto pode causar traumas incríveis em quem ainda não está preparado para isso. Um trauma tão grande de quanto o do bebê que vem ao mundo da maneira convencional.

O método do médico Cláudio Basbaum é muito simples, como ele explica:

– Em síntese, esse tipo de parto apenas não permite que haja uma quebra, uma mudança brusca entre o mundo do feto e o que ele vai encontrar aqui fora. Vivendo num ambiente líquido, na posição fetal, com claridade difusa, numa temperatura de 37°C, no parto convencional ele é bruscamente atirado em um ambiente com temperatura de 18° a 15°C, fortemente iluminado e cheio de ruídos. As suas pernas, acostumadas à posição fetal são bruscamente esticadas e ele é segurado pelos pés, de cabeça para baixo, o que provoca uma dor muito forte. Esta é a razão pela qual ele chora. Pura e simplesmente de dor.

Tudo é só uma questão de amor

Além disso, existe o fato de se cortar imediatamente o cordão umbilical:
– Como feto ele respira de duas maneiras: pelos pulmões e através do cordão umbilical.

Por isso, o bom senso manda que se deixe o maior tempo possível com o cordão umbilical, em lugar de cortá-lo. O que acontece é que na maioria das vezes, o médico fica tão apavorado que deseja livrar-se logo da criança. Tenho um amigo médico que me diz que deseja entregar logo o bebê para a enfermeira e livrar-se logo. Então você vê que um nascimento tranqüilo e sem traumas, é simplesmente uma questão de amor. E eu coloco muito amor em cada parto que faço, cada criança que ajudo a nascer é como se fosse meu filho que estivesse nascendo.

Assim que nasce, o bebê é colocado sobre o ventre da mãe. Depois, na sala aquecida a uma temperatura semelhante à do ventre materno e bem pouco iluminada, o bebê é colocado numa bacia com água morna durante algum tempo e em seguida vai ao lado da mãe para o quarto. Lá ele fica mais um determinado tempo até ser levado ao berçário.

– Segundo estudos realizados por psicólogos e psiquiatras, as crianças dessa maneira são mais tranqüilas e se desenvolvem em condições superiores às nascidas no parto convencional. Além disso, esse trauma do nascimento, pode gerar uma angústia que se manifestará mais tarde de outras maneiras. Desde Freud a Otto Hanke é sabido o quanto o período de vida no útero materno é importante. Usando técnicas regressivas é possível fazer uma pessoa regredir ao período intrauterino. Portanto o choque do nascimento não é apenas uma teoria a mais. O nascimento sem violência é a melhor partida que se pode dar a uma criança para enfrentar o mundo. Eliminando o trauma do nascimento ela terá muito mais chances de ter uma vida normal e equilibrada.

Parto sem violência não será, porém, privilégio de quem tem dinheiro? Das classes abastadas? Para o médico Cláudio Basbaum é justamente ao contrário:

– Esse parto sai muito mais barato que um parto convencional a começar pelo fato de gastar o mínimo possível de luz. É necessário apenas uma bacia de plástico com água morna. Amor, afeto, carinho, não custam nada. E como já disse, o elemento fundamental nesse tipo de parto é o amor.

Quando a festa vira pesadelo

A cesariana é condenada pelo doutor Cláudio, “a não ser em casos extremos, em que as condições clínicas da mulher o recomendem”. As condições psicológicas também:

– Tive uma paciente que estava literalmente com a “cuca fundida” e não tinha a menor condição de um parto normal. Mas mesmo quando a cesária é absolutamente necessária, eu coloco a criança junto ao seio da mãe. Ela precisa desse afeto que mesmo inconsciente a mãe transmite, precisa do calor do corpo da mãe. Na maioria das vezes as mulheres que vêm pedir para fazer a cesária, estão apavoradas. É aquele medo que vem sendo transmitido a gerações e que transforma um momento que deveria ser de alegria e festa em pesadelo.

Na França, onde o doutor Leboyer criou o método do “nascimento sem violência”, muitas mulheres já experimentaram os dois sistemas e sabem, na prática, a diferença. Como Paule, 30 anos, que tem dois filhos, Laetitia, com 5 anos, e David, com um mês. Laetitia nasceu em um hospital, dentro do método convencional e David, na Clinique des Lilás, que usa o método Leboyer. Paule conta a diferença:

– Quando Laetitia nasceu, foi em um hospital comum, igual àqueles em que milhões de mulheres têm seus filhos. E eu só posso recordar o parto como um pesadelo. Quando chegamos ao hospital, a enfermeira queria impedir Christian (meu marido) de entrar comigo. Ele teve quase que forçar, a tapas, sua entrada na sala de parto. Fui colocada em uma posição incômoda e rodeada por duas enfermeiras, já que o médico saíra para almoçar. As dores eram muito fortes e as enfermeiras queriam aplicar um anestésico. Me recusei, pois queria ver minha filha nascer. Em volta de mim, só ouvia gritos e ordens. Finalmente quando Laetitia nasceu seu cordão umbilical foi cortado com um golpe brusco e antes que pudesse acariciá-la a levaram para longe.

Mas quando David nasceu, foi tudo diferente:

– Para começar, durante o tempo de gestação freqüentava a Clinique des Lilás para assistir palestras e pude ver alguns partos. E Christian acompanhou-me. No dia do nascimento de David ele ficou na sala ao meu lado. As luzes eram poucas e difusas. Assim que David nasceu foi colocado sobre meu ventre sem que o cordão umbilical fosse cortado. Foi o próprio Christian quem cortou o cordão com duas pinças. Depois David foi colocado em uma bacia com água morna. Ele ficou feliz movendo as pernas e braços. Quando quiseram tirá-lo David chorou. Ele ficou na água mais um tempo e depois foi colocado em meus braços. Fomos juntos para o quarto e ficamos em uma grande cama. Cada vez que David tinha fome eu lhe dava o seio. A experiência foi maravilhosa, a tal ponto que desejo ter mais dois filhos, desde que pelo método Leboyer.

Uma jornalista americana Suzannah Arms escreveu um livro chamado Imaculada Decepção, no qual protesta contra a maneira como as mulheres são tratadas.

– Durante o parto a grande preocupação dos médicos é que o bebê nasça logo. A mulher, a mãe é ignorada, e os médicos se comportam como se o nascimento de uma criança fosse um ato mecânico. No parto, agem como se a mãe fosse uma fábrica e eles operários encarregados da produção. Depois, é claro, que as mulheres ficam apavoradas e transmitem aquele medo, aquele pavor às filhas. O parto é encarado então como um castigo ou provocação dolorosa a que todas estão sujeitas.

Revestir com o caráter de cerimônia de ritual, de festa o milagre de uma nova vida que surge, é o objetivo de todos os médicos que se batem pelo nascimento sem violência. Uma festa da qual a família participe e que seja lembrada como um momento de imensa alegria, e não como um pesadelo doloroso, a condenação que, segundo a Bíblia foi atribuída a Eva.

 

Texto de Malu Maranhão

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