Embora seja uma prática antiga e popular, o aborto continua a ser um tema cercado de tabus. No Brasil, o aborto voluntário é considerado crime, o que leva muitas mulheres a buscarem formas ilegais de fazê-lo.

Em 2016, o Ministério da Saúde publicou, inclusive, dados que mostraram que uma média de quatro mulheres morrem diariamente devido à complicações do aborto.

Atualmente, o Código Penal Brasileiro não pune o aborto em apenas duas circunstâncias: o chamado aborto necessário, quando não há outro meio para salvar a vida da gestante, ou quando a gravidez é decorrente de estupro. Conforme decidido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2012, ao julgar a ADPF 54, também é permitido o aborto, com assistência médica, se ficar comprovado que o feto é anencéfalo.

Na internet, é possível encontrar diversos sites que indicam técnicas – ainda que ilegais – para auxiliar o aborto feito em casa. Entre os métodos mais buscados, está o uso do medicamento Cytotec.

“Gostaria de agradecer pela honestidade usei e deu tudo certo e estou muito feliz agora, o procedimento foi tranquilo” e “Estou amamentando posso tomar?” – essas são apenas duas mensagens entre as diversas que podem ser encontradas no site “Cytotec aborto”que comercializa ilegalmente o produto.

Com esses relatos, nota-se que o conhecimento sobre a droga é muito pequeno, o que aumenta os riscos de complicações.

Para que serve o Cytotec?

Embora seja utilizado ilegalmente para abortos, Cláudia Serafim Giaccio, ginecologista e obstetra do Hospital Santa Catarina, explica que o Cytotec é um medicamento que tem na sua composição Misoprostol, produto sintético, metil análogo da prostaglandina (moléculas que são sintetizadas para se ligar a um receptor de prostaglandina).

“O medicamento foi aprovado pela FDA (Food and Drug Administration) nos anos 1980 para o tratamento de uma série de desordens estomacais (como gastrites e úlceras). No entanto, por provocar contração uterina, muitas vezes resultando em abortamento, passou a ser utilizado indiscriminadamente com essa finalidade. Por conta disso, seu uso foi restrito somente a ambientes hospitalares qualificados”.

Como o remédio funciona?

De acordo com Claudio Basbaum, quando administrado, o Cytotec é absorvido rapidamente e transformado numa substância biologicamente ativa cujo pico de concentração é alcançado em 30 minutos, caindo acentuadamente em cerca de duas horas quando administrado por via oral e mais lentamente quando pela via vaginal.

“Sua atividade se faz sobre uma substância chamada prostaglandina que está associada à secreção ácida do suco gástrico. Isso acelera o trânsito intestinal – promovendo diarreia e náuseas/vômitos -, além de relaxar e dilatar o colo uterino, o que contribui para uma progressiva contratilidade uterina, que pode levar ao abortamento ou auxiliar nas induções de parto”, afirma Claudio.

As doses, a via de administração e os intervalos para o uso devem ser indicados de acordo com cada caso, além de precisarem ser feitos em ambiente hospitalar, sob protocolos estabelecidos e rigoroso controle médico.

Perigos de comprar medicamento sem autorização

Em 2017, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) divulgou uma nota sobre a proibição da venda irregular em websites do medicamento Cytotec (misoprostol).

De acordo com a Anvisa, toda e qualquer venda de medicamentos à base da substância misoprostol é restrita a estabelecimentos hospitalares devidamente cadastrados e credenciados.

Além disso, a Anvisa informa que agentes de cada estado brasileiro investigam sites que vendem o medicamento de forma ilegal. Medicamentos que não foram liberados pelo órgão não podem ser comercializados em nosso território, mesmo que tenham sido liberados através de outras instituições em outros países, como por exemplo o FBA, dos Estados Unidos.

Riscos de usar o Cytotec

As principais complicações que uma pessoa pode ter ao usar o Cytotec são:

  • Náuseas e vômitos
  • Dores abdominais
  • Diarreia
  • Arritmia cardíaca
  • Tremores e calafrios
  • Tonturas
  • Hiperestimulação uterina
  • Hipertermia
  • Sonolência.

Dependendo da época da gestação, se estiver mais avançada, pode ocorrer ruptura uterina, hemorragia vaginal e até mesmo parada cardíaca.

Procurando ajuda médica

Caso a mulher apresente alguma dessas complicações e tenha feito o uso do medicamento sem controle médico, é essencial buscar ajuda em um hospital.

“Ao chegar, é indispensável comunicar ao profissional da área de saúde que fez uso desta substância para os efeitos colaterais serem devidamente tratados. Se a gravidez estiver avançada, há maior risco de pré-eclâmpsia e embolia de líquido amniótico, por exemplo”, alerta Claudio Basbaum.

Além disso, é imprescindível dizer a verdade para o médico do pronto-socorro. Se estiver preocupada com a exposição de sua história, fique tranquila pois existe o sigilo profissional que protege a relação entre o médico e paciente.

“É vedado ao médico: Art. 73. Revelar fato de que tenha conhecimento em virtude do exercício de sua profissão, salvo por motivo justo, dever legal ou consentimento, por escrito, do paciente”, lembra Cláudia Serafim Giaccio.

Sendo assim, o sigilo permanece garantido: a) mesmo que o fato seja de conhecimento público ou o paciente tenha falecido; b) quando de seu depoimento como testemunha. Nessa hipótese, o médico comparecerá perante a autoridade e declarará seu impedimento; c) na investigação de suspeita de crime, o médico estará impedido de revelar segredo que possa expor o paciente a processo penal.

Veja a matéria publicada no portal Minha Vida.

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